Florianópolis Carnaval 2016 – Desfile do Grupo Especial lota Nego Quirido

Camila Ventura, rainha de bateria da Coloninha (foto/divulgação:Petra Mafalda/PMF)
Camila Ventura, rainha de bateria da Coloninha (foto/divulgação:Petra Mafalda/PMF)

O desfile do Grupo Especial na Nego Quirido, entre a noite de sábado (6) e a manhã de domingo (7), mostrou que o Carnaval de 2016 vai ficar na história. Casa cheia, até quase o final dos desfiles – só houve um ligeiro esvaziamento das arquibancadas, coisa de 10% a 15% do público, depois que a escola Os Protegidos da Princesa, a quarta a se apresentar, terminou sua passagem pela pista.

Mas o calor do público com a Unidos da Coloninha, que desfilou logo em seguida, compensou a pequena perda de audiência. No mais, houve a estreia da Nação Guarani – que, apesar de pobrezinha em fantasias e adereços, foi coesa do início ao fim – as belas fantasias da Embaixada Copa Lord, a Ala da Baianas reforçada da Coloninha e a Dascuia, mostrando mais uma vez a que veio.

Nação Guarani

Estreante no Grupo Especial este ano, a campeã do Grupo de Acesso em 2015 entrou na passarela falando sobre a Comunicação, a “gigantesca teia sobre o mundo”. E foi tecendo essa gigantesca teia que a escola abriu o desfile, com uma ‘aranha robótica’ – se não usassem o termo, o público não saberia o que era aquela estrutura de globo com oito estruturas de braços – na Comissão de Frente, construindo a rede mundial de informação conhecida como internet.

“Sou uma usina de conhecimento/Um cartunista através do tempo/Da China o papel a despontar/Nas páginas da vida, no rádio as canções/A imagem na TV, em cartaz no cinema/Alô em cada click um sentimento/Formatando fragmentos, filial ou matriz/Comunicar é minha diretriz.”

Com duas alegorias ‘anacrônicas’ – o futuro na abertura e o passado remoto fechando o desfile – a Nação Guarani apresentou o enredo www.carnaval.com.nacao. Da pré-história antiga… O caminho da comunicação. A escola apresentou 22 alas e três casais (um mirim) de mestre-sala e porta-bandeira. Falou dos sentidos humanos, da inteligência artificial e da hipermídia e veio regredindo no tempo, com a invenção da imprensa, as mídias analógicas, a fotografia, os sumérios, os papiros e as inscrições rupestres.

Por isso, a escola optou por fechar com “Comunicação Primitiva da História”, numa alegoria, segundo o enredo, “onde o passado é visto pelo futuro”:

“As cavernas da pré-história e os períodos dinásticos dos hieróglifos e sumérios dão lugar a uma arquitetura quase robótica, interestelar, uma viagem ao tempo em busca dos elos perdidos nessa preciosa comunicação que nos leva do passado ao presente, uma fusão do belo e do feio, que visa à idealização do personagem principal, tornando-o a imagem da perfeição.”

O último carro, aliás, foi o mais belo do desfile da escola. Foi seguido por uma ala formada de cadeirantes e por outra com os ‘amigos da Nação Guarani’, que incluía o prefeito de Palhoça, Camilo Martins.

A Nação Guarani foi fundada em 2010, fruto de uma ideia que brotou em 2008, depois que o município de Palhoça, berço da agremiação, foi tema de enredo da escola Os Protegidos da Princesa. A Nação começou a se apresentar no Carnaval de Florianópolis já em 2012.

Dascuia

Quarta colocada no ano passado, quando debutou no Grupo Especial, a Dascuia trouxe seu samba este ano à passarela para enaltecer a tradição vinícola catarinense. “A Tradição do Vinho, a Força de um Povo, Isso é Santa Catarina” é um enredo literalmente inebriante. “Celebrar o vinho é uma forma acima de tudo de contar um pouco os devaneios da humanidade”, resume o book da escola, fundada como bloco em 2004. “O vinho é dotado de mistérios e é realizador de milagres.”

Com 26 alas, quatro casais de mestre-sala e porta-bandeira e três alegorias – a primeira delas saudando Baco, o deus romano do vinho, que é para dar sorte – a Dascuia contou a história do vinho desde sua origem: a uva.

Depois de um grito de guerra arrancado lá do fundo – “eu sou Dascuia, eu sou Dascuia” – o desfile abriu evocando Baco (ou Dionísio,a mitologia grega), com sua comissão de frente, formada por faunos e ninfas, além do próprio deus, descrevendo o cortejo Baco/Dionísio: “… o Deus do encanto pairando no espaço disperso, abrindo caminho nos ventos, nos leva a um passeio no tempo, no esplendor de uma viagem fantástica, guiada por sua carruagem dourada, adornada com heras e cachos de uvas, puxada por animais selvagens e seguida por cortejos encantados de faunos, bacantes e ninfas…”

A Dascuia colocou três alas no meio do cortejo enaltecendo as cidades catarinenses famosas por suas uvas: Urussanga, Videira e São Joaquim, não esquecendo do Vale do Rio do Peixe. A bateria passou um pouco da área de recuo, voltou, mas não provocou grandes dramas à evolução da escola.

O samba-enredo não deixou por menos, foi embriagante:

“E assim vai brotando da terra a magia, o sabor/Que me toca a alma e me faz celebrar/Mergulhar nas borbulhas, esquecer o pudor/Delírio da mente arrebatador/Transporta os segredos mais excitantes/Loucas bacantes, a sedução/O néctar divino eu vou degustar/O vinho bom que faz arrepiar”

Depois de falar das maravilhas do vinho, a Dascuia terminou o desfile de maneira politicamente correta: exibiu uma faixa com o mantra “se beber, não dirija”.

Embaixada Copa Lord

Detentora de 23 títulos do Carnaval florianopolitano e terceira colocada em 2015 – empatou em pontos com a União da Ilha da Magia, mas perdeu nos critérios de desempate – a Copa Lord dedicou seu desfile este ano a Anderson Ricardo Santos, o Andy do Cavaco, coordenador musical da escola, encontrado morto por afogamento na praia do Abraão em 26 de janeiro e “neste momento do desfile (…) tocando seu cavaco numa grande festa no céu”.

Tirante a tristeza da dedicatória – e a estranheza da coreógrafa de vestidinho amarelo e coque diante das fantasias da comissão de frente – o enredo da Copa Lord foi pura festa: “Eu sou da mais querida, não posso negar, vou com a Copa Lord pelo Brasil a festejar” falou das festas brasileiras, do frevo de Olinda, da Congada, do Maracatu, da Festa da Uva, do Círio de Nazaré…

“E quem quiser fortalecer a fé/Vai seguir a multidão/Tem procissão, é Círio de Nazaré/Ao norte de meu país eu vi despertar/A força de Parintins, um brilho no olhar/Se caprichar fica mais lindo/O nosso show tá garantido/O mundo se rendeu aos teus encantos/A festa não pode parar/E leve flores pra saudar Iemanjá/Ao ano que vai nascer um novo tempo virá/Se você pensa que acabou, agora é que vai começar”

,,, do Boi Bumbá, dos rituais indígenas, da Marujada, das festas juninas, da Festa do Peão… Isso sem esquecer, é claro, das catarinenses Oktoberfest e Fenaostra, esta representada pela Ala das Crianças.

“No Carnaval de 2016, a Embaixada Copa Lord quis mostrar na avenida que festa boa se faz em casa! A passarela do samba experimentou a animação de um Brasil todinho de festas a desfilar em nossa escola de samba. Nossas alas no prasso do frevo, do maracatu e da toada, Nossas alegorias no Rio de Janeiro, em Parintins e em Floripa. Nosso desfile elevou no tempo e no espaço a magia e a cultura das festas brasileiras, no enredo da Mais Querida.”

Com 2.460 componentes declarados, a Copa Lord veio com 22 alas, doias casais de mestra-sala e porta-bandeira e quatro carros alegóricos, alguns com ‘dupla face’ (de um lado, festas juninas; de outro o Boi-Bumbá) e o último deles reverenciando a ponte Hercílio Luz – que em 2016 festeja seus 90 anos – como base para a festa de Réveillon. Faltou dizer que toda a festa das festas foi coordenada pelo Zé Pereira, convidado pela bruxas de Cascaes. Que o cidadão samba Nego Gê, que parece um boneco de corda, foi um espetáculo à parte e que a entrada da bateria na área de recuo trouxe algumas sequelas à evolução do conjunto.

E se você pensa que acabou, agora é que vai começar…

Os Protegidos da Princesa

Bicampeã no ano passado, a mais antiga escola de samba da Capital trouxe as mathrioskas para sambar na Nego Quirido e tentar seu 26º título do Carnaval de Florianópolis.

“Primaveras Russas: Uma História do Mundo em Partituras” tratou da história da Rússia sob o enfoque da música, ou “como a música expressa o espírito de diferentes momentos da Rússia, vividos ou imaginados por seus compositores e público”.

“O título ‘Primaveras Russas’ alude aos fatos importantes que aconteceram nesta estação, associada na natureza e na história a transformação, renovação e florescimento. É ‘uma história do mundo’ porque não aconteceu isolada em seu espaço geográfico, mas entrelaçada ao que ocorria, mas entrelaçada ao que ocorria na dinâmica do planeta. Será contada em ‘partituras’ porque a música é o caminho escolhido para para expressar o espírito de diferentes momentos – selecionando entre muitas obras algumas que servem à construção desta narrativa – como fio condutor que interliga outros dados artísticos, sociais, políticos e culturais”, já avisava, antes do desfile, o book da agremiação.

“Lá das colinas, vejo a flor/ Tribos dançam em ritual/Nos olhos da anciã, um futuro promissor/É a ‘primavera’ de um gigante/Que em cada ‘passo’ a história marcou/Eis que de repente em meio aos salões/A melodia faz a corte delirar/Sonhando com a bela que adormece/Com cisnes e brinquedos de um mundo ideal/Desperto ao som de valentes canções/Nos lares, nas ruas e nas multidões/Ecoam pra vencer o capital”

O enredo nos remeteu a alguns grandes compositores russos, como Tchaikowski (O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida e o Quebra Nozes), Borodin (O Príncipe Igor), Stravinski (A Sagração da Primavera) e Rimsky-Korsakov (A Donzela da Neve).

A escola se apresentou com 20 alas, quatro alegoria e três casais de mestre-sala e porta-bandeira, o terceiro deles mirim. O primeiro carro alegórico, em dourado e branco, foi esfuziante. O último, com um urso que dispensa lágrimas enormes, também chamou a atenção.

Unidos da Coloninha

A Unidos da Coloninha não foi campeã do Carnaval no ano passado por causa de uma baiana.

Sério: a escola fez meio ponto a mais do que a campeã Os Protegidos da Princesa – 268,1 a 267,6 – mas perdeu dez pontos porque faltou uma integrante na Ala das Baianas. Com isso, a escola saltou para a quinta colocação, menos de 5 pontos à frente da rebaixada Consulado do Samba.

Este ano – quando, por via das dúvidas, colocou baianas ‘sobressalentes’ na Ala – deseja recuperar o tempo perdido e fala em seu enredo, justamente, de desejo: “A Coloninha para o Carnaval 2016 nos leva para uma viagem entre os desejos e suas possibilidades de realizações. Essa viagem é conduzida pelos mais diversos tipos de desejos, sejam eles os primitivos, imaginários, os essenciais e intrínsecos da natureza humana, ou até mesmo as novas concepções de desejos”, informa o book.

O tema é um pouco longo – “Pelas influências das leis do universo que governam a realidade do tempo e do espaço é que a Unidos da Coloninha irá realizar seus desejos – mas o enredo não fugiu ao que se propôs: falou do primeiro grande desejo da história, o fruto proibido, do desejo de conquistar o universo (a corrida espacial), do desejo de voar, de casar, desejo de justiça, do desejo de cair no samba (muito justo e oportuno), do desejo da liberdade de expressão, o desejo de fazer o bem sem olhar a quem e, em contrapartida, o desejo de propagar o mal.

Falou também em nossos desejos mais corriqueiros, como o de ficar milionário ou de comer mais (gula), o desejo de ser uma eterna criança, o desejo de viver mais, o desejo da beleza e, é claro – não caberia melhor desejo à Coloninha – o sonho de ser campeão: “Ser campeão não é superar o outro, mas conseguir realizar os seus talentos ao nível mais alto de sua existência. E nessa disputa a Coloninha mantém vivo esse desejo.”

As 24 alas, com três alegorias, cantaram sem parar o que ao final resume o desejo da escola:

“Assim vou eu no universo, conspirando as emoções/Ser um rei nessa folia em boa forma, paz e união/Saciar nos prazeres, viver fantasias, alcançar o sucesso, espelhar alegria/Buscar a vitória e com a Unidos desfilar vestida em luxo e ostentação/Desce meu povo a batucar, essa escola é minha raiz/Um desejo contido, na alma e no coração, o sonho de ser campeão”

Das alegorias, a primeira – com dupla face: a primeira, uma caverna, de onde emergem obviamente homens das cavernas; a outra, uma metrópole, de onde emergem seres ‘high tech’, como personagens saídos do filme Tron – e o da “Escuridão da Alma” chamam a atenção: a primeiro, pelos efeitos luminosos das fantasias, e o segundo por ser de certa forma amedrontador.

União da Ilha da Magia

“Eu lutei, revoltas em busca da igualdade/Ecoa em nossa terra a liberdade/Sou filho africano e dono desse chão/Marcou a história/Tanta cobiça em minha nação/Aos ancestrais eu peço glória/’Nasci das cinzas’, União/Vou viajar/Saudade refletiu na fantasia/Se o samba é acalanto e poesia/O povo vai cantar”

Com o enredo “Haiti-A Pérola das Antilhas, o País mais Africano das Américas”, a União da Ilha da Magia, segunda colocada no ano passado, trouxe 24 alas e três alegorias à Nego Quirido para contar um pouco da história do Haiti, país pobre e castigado por desastres naturais e, como diz o próprio samba, pela cobiça. Se a escola trouxe em 2015 um tema caro aos florianopolitanos – o surf – em 2016 traz outro afeito à cidade, que acolheu alguns pobres imigrantes haitianos e deu-lhes a oportunidade de recomeçar a vida.

“Haiti, ou Ayiti, na língua local, a Pérola das Antilhas, está pronta para mostrar sua trajetória de mais de 500 anos de história na Passarela do Samba, no Carnaval 2016 da União da Ilha da Magia. Assim como a pérola, conhecida pela mitologia como a Lágrima dos Deuses – joia que encanta e fascina, desde os primórdios da humanidade, por sua beleza inata – o Haiti vai se apresentar na Nego Quirido, em Florianópolis, para mostrar suas riquezas mais profundas e desvendar os mistérios e o milagre que tornam esse país um gigante sobrevivente, diante das dificuldades, dos problemas políticos, sociais e estruturais que resultaram na degradação ambiental e na miséria humana”, justificava o book da escola.

Com efeito, o enredo tratou da colonização francesa, do tráfico de escravos, da independência e da exploração que se seguiu ao ato – o de tornar-se livre de seus colonizadores – que deveria significar a redenção dos haitianos. O que se viu, ao contrário, foi a submissão do povo a ditaduras sangrentas, como a dos Duvalier, e a degradação monstruosa de suas florestas.

Não bastasse, em 2010 o país foi destruído por um terremoto – perdemos Zilda Arns nele, lembram-se? – e hoje, apesar do gentil epíteto Pérola das Antilhas, o Haiti é o país mais pobre do Ocidente, seu IDH é o pior das Américas e a maioria de sua população vive abaixo da linha de pobreza.

Chamá-lo de ‘gigante sobrevivente’ não é apenas uma licença poética.