Rio de Janeiro Carnaval 2018 : Beija-Flor é a campeã do Carnaval e Paraíso do Tuiuti vice

Rio de Janeiro Carnaval 2018 - RioTur
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A apuração das notas do carnaval 2018 do Rio de Janeiro ocorreu na tarde de quarta-feira (14.02.18), na Marquês de Sapucaí. A campeã foi a Beija-Flor, com 269,6 pontos. Em uma disputa apertada, a campeã ficou apenas um décimo à frente da segunda colocada, a Paraíso do Tuiuti (269,5), que fez um desfile com tema associado com o pensar da maioria dos brasileiro. As escolas Grande Rio (266,8) e Império Serrano (265,6) foram rebaixadas para o Grupo de Acesso.

Resultado final da apuração:
1º Beija-Flor de – 269,6
2º Paraíso do Tuiuti – 269,5
3º Salgueiro – 269,5
4º Portela – 269,4
5º Mangueira – 269,3
6º Mocidade – 269,3
7º Unidos da Tijuca – 269,1
8º Imperatriz – 268,8
9º Vila Isabel – 268,1
10º União da Ilha – 267,3
11º São Clemente – 266,9
12º Grande Rio – 266,8
13º Império Serrano – 265,6

Folia com Protesto : Só faltou bater na Reforma da Previdência
Com o enredo Meu Deus, Meu Deus! Está extinta a escravidão?, a escola levou para o Sambódromo um desfile que gerou repercussão em todo o país. “Não sou escravo de nenhum senhor. Meu Paraíso é meu bastião. Meu Tuiuti, o quilombo da favela. É sentinela da libertação”, diz o refrão do samba. Inicialmente retratando a situação de escravos em diversos momentos da história, a Paraíso do Tuiuti também mostrou a exploração de parte da população que ainda ocorre atualmente. Só faltou bater na Reforma da Previdência e exibir as fotos dos políticos que são a favor da Reforma Trabalhista e da Previdência.

No fim do desfile, a escola levou para a avenida um integrante vestido de vampiro usando uma faixa presidencial. Manifestantes que bateram panelas e saíram as ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff foram representados como marionetes com camisa da seleção brasileira, manipulados por mãos enormes. Um discurso em defesa dos direitos trabalhistas apareceu na fantasia de operários que seguravam uma carteira de trabalho gigante como escudo.

Para Jurandir da Silva, a escola atingiu o objetivo de dar visibilidade a problemas do Brasil. “A situação está uma covardia. O que nós estamos passando, o mundo inteiro precisava ver”. A presidente da velha guarda da escola, Vitória Costa concordou. “Nós acompanhamos as redes sociais. Não só no Brasil, mas até em outros países, estão falando de nós”.

A Paraíso do Tuiuti foi fundada em 1954 e sua história começa no Morro do Tuiuti, no bairro de São Cristóvão. Durante grande parte de sua trajetória, a escola foi pouco conhecida. A primeira participação no Grupo Especial ocorreu em 2001, o que só voltou a se repetir no ano passado.

Luciene Barreto Brandão, que desfila na escola há cinco anos, destacou a união da comunidade. “Às vezes, ninguém dá nada pra gente, mas nós mostramos que podemos fazer a diferença e superar as grandes escolas. Esse enredo mexeu todo mundo. Você via as pessoas chorando na arquibancada”, disse.

Enredos das Escolas vencedoras expressam pensamento da sociedade
O cantor Neguinho da Beija-Flor, intérprete da azul e branco de Nilópolis, disse que o resultado do campeonato da sua escola e da Paraíso do Tuiuti, que ficou em segundo, é consequência dos enredos que expressaram o pensamento da sociedade brasileira. “Ganharam duas escolas que falaram aquilo que o povo gostaria de falar, para os governantes, há muito tempo”, afirmou.

Para o intérprete da Beija-Flor o samba-enredo que recebeu nota máxima e era o quesito desempate, contribuiu para a conquista do título porque era um samba forte. “Veja o que aconteceu com a Tuiuti, também tinha um excelente samba. Os melhores sambas do carnaval, e olha as colocações das escolas. O samba é primordial. Na minha concepção, um bom samba é 70% de um bom desempenho”, contou.

O bailarino Marcelo Misailidis, coreógrafo da comissão de frente da Beija-Flor e autor do enredo com que a escola ganhou o título de campeã de 2018, disse que, com os trabalhos maravilhosos apresentados na Marquês de Sapucaí, o resultado da campeã sempre é uma incógnita. “Lamento que o carnaval seja uma competição às vezes tão dura entre obras artísticas de tanta qualidade, mas fico feliz por essa mensagem ter atingido o coração e despertado emoção em todas pessoas”, afirmou.

Após com o título, ele disse que a vitória maior foi da mensagem que a escola passou no desfile. “A vitória que fala sobre um enredo que acontece cotidianamente nessa cidade, acontece cotidianamente nesse país. É luta por uma dignidade maior, por uma cidade melhor, para que haja mais segurança melhor e mais controle com relação a qualidade da educação e da saúde. Então, o enfoque, acho que é a grande vitória desse processo e fico feliz por isso”, apontou.

Fora Temer
Michel Temer (MDB), presidente do Brasil, que recentemente não entendia as críticas ao seu governo pois não havia protestos nem passeatas, teve no Carnaval 2018, uma resposta clara da população. A catastrófica gestão que busca a retirada de direitos da população e servidores públicos de carreira, que privilegia políticos e judiciário, que intervém e desmonta a Polícia Federal, que entrega as riquezas naturais do país à empresas internacionais, que está envolvida em negociatas e compras de votos para Reformas que prejudicam os brasileiros e beneficiam empresas, além de estar envolvido em corrupção, recebeu em diversos eventos a reclamação ao gritos de “Fora Temer”.  

Crise
Mas nem tudo é alegria no título da Beija Flor. Laíla, diretor de Carnaval da escola, saiu do Sambódromo reclamando das dificuldades que enfrentou na preparação do carnaval. Disse que precisou de muito empenho para impedir uma crise na agremiação e mandou um recado ao presidente de honra, Anísio Abraão David.

“Eu vou te pedir, Anísio, se eu não te sirvo me manda embora cara. Deixa eu ajudar o irmão que está necessitando, o Jayder [Jayder Soares, presidente de honra da Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio] está necessitado e ele é nosso irmão”, disse, dando o sinal de que pode se transferir para escola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. A escola foi uma das duas que caíram para o grupo da Série A. A outra foi o Império Serrano.

Tuiuti
Na Tuiuti, o diretor de carnaval Thiago Monteiro disse que a conquista do vice-campeonato foi o resultado do trabalho de um grupo. “Acabamos de mostrar que, com trabalho e dedicação, [a escola] pode ser competitiva. Parabéns para o grupo. Parabéns à Beija Flor, parabéns a Nilópolis, mas está aí a Tuiuti”, indicou.

Mangueira
O presidente da Mangueira, escola que ficou na quinta colocação, disse que não discute resultado da disputa, mas acrescentou que a escola fez o papel dela na avenida. “A Mangueira fez a parte dela e os jurados entenderam de outra forma, eu respeito”, disse. Ele pediu ainda que a comunidade da Mangueira continue confiando nele como sempre fez.

Imperatriz
Na Imperatriz Leopoldinense, que ficou em oitavo lugar com o enredo Uma Noite Real no Museu Nacional, que homenageava os 200 anos do Museu Nacional, o diretor de carnaval, Wagner Araújo, disse que algumas notas dadas pelos julgadores o surpreenderam, porque esperava receber avaliações melhores. Ele admitiu que a escola poderia ser punida no quesito alegorias e adereços.

Segundo o diretor, agora a direção da escola vai aguardar a divulgação pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) das justificativas dos jurados para corrigir o trabalho para o carnaval de 2019. “Sentar com calma, discutir e falar se tem que mudar alguma coisa. Se as ideias têm que ser diferenciadas. O momento é de bastante decepção”, contou.

Grande Rio
A Grande Rio, que desfilou com o enredo Vai para o Trono ou não vai?, em homenagem ao comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, ficou em 12º lugar e com isso caiu para o grupo da Série A. Nos últimos anos, a escola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, sempre estava entre as seis mais bem classificadas e, por isso, voltava a desfilar no Sábado das Campeãs. Dessa vez a derrota pesou nos componentes.

O casal de mestre-sala e porta-bandeira Daniel Werneck e Verônica Lima recebeu três notas 10 e uma 9,9, que foi descartada conforme o sistema de contagem das notas. Mesmo garantindo os pontos máximos e terem recebido o Estandarte de Ouro, prêmio concedido pelos jornais O Globo e Extra, a tristeza bateu forte. “É um sentimento de muita dor, porque a Grande Rio foi julgada com muita cobrança e mão de ferro. A gente vê outras escolas errarem e não são penalizadas com tanto rigor. Isso é muito doloroso pra gente”, disse Verônica.

Portela
Para a Tia Surica, cantora e uma das figuras de destaque da Portela, o quarto lugar da escola não estava na expectativa, mas, ainda assim, considerou que o título conquistado pela Beija-Flor foi merecido. “Foi merecido. Ganha aquela que erra menos”, disse, sem, no entanto, achar que a Portela errou demais, apenas não conseguiu superar o desfile da escola de Nilópolis. “Não deu para gente, vamos lutar para o ano que vem”, completou.